Todos os dias entram nas prisões portuguesas objectos proibidos.Lá dentro não é difícil escondê-los
Todos os dias entram telemóveis nas cadeias portuguesas para uso dos reclusos. Uma ilegalidade para a qual os detidos usam engenho e muita imaginação para ludibriar os esquemas de segurança. Recentemente, mais um exemplo: No interior do Estabelecimento Prisional de Coimbra foi encontrado, junto a uma torre de vigilância, um pacote de leite com sete telemóveis e respectivos carregadores de bateria.
Suspeita-se que a embalagem tenha sido arremessada da rua, havendo, depois, quem fosse buscar a ‘encomenda’ ao local previamente combinado. Neste caso, os guardas conseguiram detectar o recluso que estava incumbido de ir recolher a embalagem. Por estar actualmente a frequentar um curso de calceteiro, aquele preso conseguia, até agora, maior liberdade de movimentos.
A ‘revista’ apertada, com o recurso a raio-x, a que são sujeitas as visitas dos presos, também ‘provocam’ a imaginação daqueles que cumprem medida privativa da liberdade, levando-os a inventar esquemas alternativos à lei. Lá dentro, muitos guardas ficam atónitos com a capacidade de invenção dos reclusos e estranham até como é possível dissimular a entrada na cadeia daqueles equipamentos. “Sim, continuam a circular telemóveis nas cadeias e até há casos em que os aparelhos apreendidos voltam a ser confiscados aos reclusos”, afiança ao DN uma fonte sigilosa.
Nas rusgas internas “são descobertas várias formas de revestimento dos telemóveis que, dessa forma, não são detectados pelo esquema de segurança”. Houve já quem, no decurso de uma pesquisa exaustiva ao tacão alto dos sapatos de uma mulher visitante, conseguisse encontrar um telefone móvel de pequena dimensão. A perspicácia e as rondas dos guardas prisionais continuam a dar frutos: são constantemente apreendidos telemóveis, entre outros objectos. Certo dia, num fundo falso de uma lata de chocolate em pó, lá estava um telemóvel. Há quem tente ‘tirar a prova dos nove’ ligando para números que se suspeita estar intramuros, “mas eles [os reclusos] têm sempre os telemóveis em silêncio”, explica ao DN outra fonte.
Há quem continue incrédulo com esta realidade numa cadeia de alta segurança: “Não se percebe. Depois de passarem a pente fino as visitas, os reclusos também são revistados antes de regressarem às celas, não se compreende como lá entram esses objectos”, relata outra fonte.
A imaginação parece ser o denominador comum para camuflar os telefones móveis. Há cadeias onde são eles são escondidos nos pacotes de leite, em suportes de lâmpadas, nas prateleiras (onde constroem fundos falsos), por detrás dos azulejos das celas, e até nas sanitas! Certo é que nalguns casos, os telemóveis nem são usados pelos reclusos para a sua função principal, isto é, o contacto com o exterior, uma vez que os aparelhos são usados para pagamento de favores a outros reclusos. São, pois, moeda de troca, nem que seja apenas o cartão pré-pago. Nesta complexa teia social que se instala em ambiente prisional, parece que tudo vale. “Há reclusos que se sentem ameaçados de morte por outros reclusos e, se não arranjam telemóveis levam porrada, nalguns casos até choques eléctricos”, revela uma fonte.
Várias fontes contactadas afiançam que as prisões continuam vulneráveis e que só auditorias rigorosas ao funcionamento das prisões poderiam estancar a entrada dos telemóveis e doutros objectos expressamente proibidos pela legislação em vigor.